Secretário da Cultura fala sobre projetos para SP


Interiorização da cultura e integração dos projetos. É por essas duas bandeiras que o paulistano Andrea Matarazzo espera ser lembrado pela sua passagem à frente da Secretaria de Cultura do Estado, posto que ocupa desde 2010.

Um dos raros remanescentes do primeiro escalão do governo anterior na equipe atual Matarazzo atribui ao tempo em que ocupou a pasta dos Serviços e Subprefeitura da Sé (com José Serra) e, posteriormente, a Secretaria das Subprefeituras (com Gilberto Kassab) o fato de ter se encantado pela administração pública. Apesar de já ter ocupado cargos de destaque, foi agora, aos 54 anos, que esse administrador de empresas de formação e que carrega um dos sobrenomes mais tradicionais de São Paulo resolveu sonhar com uma eleição majoritária pelo seu partido, o PSDB.
Matarazzo falou ao Metro, em visita à sede do jornal. Secretário, a Cultura tem para este ano orçamento de R$ 1 bilhão. O sr. vai investir tudo?

Sim, no ano passado já investimos tudo. Não faltou, eu diria que foi bem. Este ano, com R$ 1 bi, dá para fazer muita coisa.

Dinheiro na Cultura, então, não é problema…
Não. Você tem que fazer coisas que vão se consolidando. Senão, é que nem jogar água demais no vaso; ele transborda. Tem que esperar a terra absorver.

E o que o Estado tem feito para fazer a Cultura chegar a todos?As Fábricas de Cultura. Estamos fazendo dez na capital. São os dez pontos identificados pela FundaçãoSeade como os de maior vulnerabilidade para jovens e adolescentes. São grandes centros culturais, sensacionais desde sua arquitetura até a qualidade dos equipamentos e programação, toda voltada para a formação. Já tem duas funcionando. A da Vila Curuçá, no primeiro mês, recebeu 10 mil pessoas. Sapopemba, com uma semana tinha 1,3 mil inscrições. Vamos inaugurar mais oito até fevereiro, seisou sete ainda este ano.

E para o interior, não vai?
Por enquanto não. O que temos feito no interior é apoiar prefeituras em projetos locais, como a reforma de bibliotecas e centros culturais, e orientado na programação. Por exemplo: na capital nós fizemos a Biblioteca São Paulo, no Parque da Juventude. Um conceito completamente diferente. São 30 mil visitantespor mês, igual ao Museu do Futebol. E por quê? Porque é acessível, tem de tudo, de quadrinhos a Shakespeare. Então temos convidado muitos prefeitos para ver como funciona. Tem ainda o Cine MIS. Só 120 municípios do Estado têm cinema, por isso estamos fazendo com as prefeituras um projeto, eles veem onde instalar e nós damos um kit, com tela, amplificador, som, projetor… E o MIS faz a programação. Já fizemos 50 e poucos e vamos fazer mais. Outro exemplo: levamos ópera para 15 municípios. Esse ano estamos indo para 40. E temos outros dois programas, o Circuito Cultural Paulista, que leva a cerca de 70 cidades sempre alguma coisa diferenciada, para criar o hábito, e o Viagem Literária, em que todo mês um grande autor fala sobre sua obra na biblioteca local. E tanto a Osesp como a São Paulo Companhia de Dança estão fazendo itinerância bem mais do que faziam. Estou levando a Pinacoteca para o interior, a primeira será em Botucatu.

O sr. pretende que isso seja um legado seu?
Sem dúvida. A interiorização será um legado. E o caminho contrário também, como o Revelando São Paulo, por exemplo, em que 300 cidades trazem à capital sua cultura de raiz. Passaram um milhão de pessoas por lá ano passado. Um milhão! Tem também a integração. Integrei o Projeto Guri com a base de iniciação, depois com o conservatório de Tatuí e a Escola Tom Jobim de Música; com a academia da Osesp e, por fim, com a própria Orquestra, com a Jazz Sinfônica, a Banda Sinfônica e a Orquestra do Theatro São Pedro. Um não falava com o outro. Hoje, o jovem do Guri vê uma perspectiva.

E o Museu de Arte Contemporânea [MAC, que ocupará o antigo prédio do Detran], será inaugurado antes de o sr. sair?
Acredito que sim, o prédio principal está pronto. Para os anexos, faltam mais um mês e meio. O MAC vai dar possibilidade de mostrar o mais importante acervo de arte moderna da América Latina, que hoje tem só0,2% exposto. Vai chegar a 10%, quem sabe. São 40 mil m2 de espaço, num grande polo cultural, que era o grande objetivo do Ciccilo Matarazzo [tio-avô] quando doou seu acervo. A data agora só depende da USP. Eu acho que este ano ainda.

E o Teatro da Dança, sai?
Sai. É um Complexo Cultural. Serão três teatros, um de 600 lugares, outro de 700 e mais um grande auditório, para 1,8 mil pessoas, com fosso. Serve para música clássica, ópera. Estamos concluindo o projeto, demos uma redefinida…

Redefinida é enxugamento?
É voltar ao que o Herzog & de Meuron [escritório autor do projeto] tinha feito.

Por quê? Ficou exagerado?
Puseram muita coisa dentro. A própria secretaria começou a colocar. Não é crítica, mas eu acho que eletem que ser menor porque temos que pensar muito no custeio depois.

Passando da cultura para a política: o sr. é candidato a prefeito da capital?
Pré-candidato. Eu conversei com o governador que gostaria de disputar. O momento agora é de discutir as prévias, qual será o modelo.

Qual foi a reação dele?
Normal.

Normal é o quê?
Ele acha bom, primeiro porque você tem mais gente disputando, isso é importante para o partido. Segundo, o debate que se abre de agora até as prévias é uma chance de movimentar o partido, motivar.

O sr. então não vai usar estratégia de negar até a última hora que é candidato…
Não. Nesse aspecto, é um desejo que eu tenho, por afinidade com a cidade. Eu nunca quis disputar eleição, mas eu me encantei no período em que fiquei na prefeitura. É uma coisa visível em mim, então seria inútil esconder.

E o sr. prevê que haverá um consenso fácil no seu partido, ou disputa acirrada?
Por mim, haverá consenso. A discussão será boa e a resultante, para quem ficar, será um programa mais completo. Acho positivo.

E qual será sua grande bandeira, se for o candidato?
Não sei ainda. Minha preocupação no momento é com a Secretaria de Cultura, por um lado, e, por outro, com a definição das prévias.

De certa forma, o sr. já está conciliando a secretaria com a aproximação dos eleitores, não? Até novela o sr. comenta no Twitter…
Ah, isso eu sempre fiz! Se você olhar o meu histórico, vai ver. Eu gosto de novela, eu acho que elas te conectam com a sociedade. Redes sociais também. Para mim, na prefeitura, foi o grande instrumento de trabalho. Pude contar com as pessoas como grandes fiscais da cidade. Eu sempre fui cidadão, sempre gostei da cidade, desde que fazia campanha pelos bairros, com Fernando Henrique, com Covas. Não vou mudar meu jeito porque sou candidato. Você nunca me viu de jeans e camiseta visitando a periferia, não vai me ver agora. Eu sou como eu sempre fui.

Entrevista publicado no Metro em 15/08/2011