Livox: app nacional promove acessibilidade


Há pouco mais de cinco anos, a realidade de Carlos Pereira era a seguinte: uma filha linda (olha que jóia rara na foto abaixo) com paralisia cerebral por conta de um erro médico no parto; a impossibilidade de se comunicar com ela pois o único aplicativo desenvolvido para o caso só existia em inglês e os desenvolvedores não tinham interesse de entrar no mercado brasileiro; e pendurado na parede, o diploma dele de Analista de Sistemas. Veja a matéria do Blog do Tas.

Diante das circunstâncias desfavoráveis, Carlos meteu a mão na massa de códigos e resolveu desenvolver por conta própria um novo aplicativo. Assim nasceu o Livox, hoje o mais competente e competitivo aplicativo do mercado mundial para possibilitar a comunicação de pessoas com doenças que interferem na fala.

Carlos começou sua aventura com a criação de um app bem simples, que instalou e testou em seu próprio celular, que ajudava a filha a responder apenas “Sim” e “Não” às suas perguntas. Aos pouquinhos, diante da melhoria na comunicação, a ferramenta foi aprimorada com a ajuda de fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais e pedagogos. Hoje, o Livox é considerado o app de ponta na arte de conectar pessoas com dificuldade de fala e já está disponível em mais de 25 idiomas, além do português, evidentemente.

A relativa repercussão no Brasil já rendeu o prêmio de melhor aplicativo de inclusão e empoderamento para pessoa com deficiência na etapa brasileira do WSA (World Summit Award), premiação apoiada pela ONU. No fim de outubro, acontece no Sri Lanka a premiação mundial do WSA, onde Carlos e equipe terão a chance de representar o país frente a 168 nações.

Atualmente, ele está em busca de recursos não apenas para a viagem mas principalmente para que o governo brasileiro o ajude a levar o Livox até as famílias necessitadas. “Sem a participação do governo é impraticável conseguir levar a tecnologia a tantas pessoas, até devido às condições financeiras da maior parte da população”, enfatiza o criador do app.

Nas mãos do Carlos, o pai da Clara, o mote punk do Do-It-Yourself ganhou sobrenome: Faça você mesmo e mude o mundo todo ao seu redor.

A seguir, o pai do Livox fala ao Blog do Tas, diretamente do Recife, onde vive a familia da pequena Clara, que completa seis anos neste mês de Setembro:

Como surgiu a ideia para o Livox (“Liberdade em Voz Alta”)?
A ideia surgiu por causa da minha filha, Clara Pereira. Ela tem cinco anos (vai fazer 6 agora em setembro) e, por conta de um erro médico no parto, tem Paralisia Cerebral. Assim como ela, 15 milhões de brasileiros não falam devido a problemas cognitivos ou motores. No caso da Clara, a dificuldade é motora, ou seja, tem toda a inteligência de uma criança da idade dela, mas está presa a um corpo que não obedece aos seus comandos. Pessoas como Clara utilizam a “Comunicação Alternativa” para se comunicarem, que geralmente são cartões impressos com uma figura e uma sentença. Tinha que ter uma maneira melhor!!!!

Você tomou a iniciativa de criar o app porque não existia nenhum outro similar no mundo?
Algumas empresas americanas fazem softwares de comunicação alternativa, porém apenas em inglês. Entrei em contato com elas mas não houve interesse em criar algo para o mercado brasileiro. Como sou Analista de Sistemas, pensei em criar um aplicativo que permitisse me comunicar com minha filha. Comecei com algo bem simples, no meu celular mesmo, escrito apenas: “Sim” ou “Não”. Só com isso já dava para “conversar” bastante com minha filha. Com o tempo adicionei novos itens e depois comprei um tablet. O Livox foi o primeiro app deste tipo em português do mundo, e atualmente ele é capaz de falar mais de 25 idiomas! Além disso, o Livox cresceu de uma forma que contém recursos exclusivos que permitem que ele se adeque a uma ampla variedade de deficiências: motora, visual, cognitiva etc. Não há nada similar no mercado!

Qual o impacto direto no dia a dia da sua filha desde a criação do app? Qual foi a reação dela no dia que você mostrou o app pela primeira vez?
O impacto tem sido maravilhoso!!! Só depois que ela começou a usar o Livox que nós pudemos ver o espetacular nível de entendimento que ela tem de tudo que se passa ao seu redor! Além disso, na escola tem sido excelente. Através do Livox a pessoa pode além de se comunicar, fazer provas, aprender, estudar etc. Ela está até mesmo escrevendo palavras através do Livox. Isso é um paradigma que precisa ser quebrado. Minha filha não consegue usar lápis e papel mas isso NÃO QUER DIZER que ela não possa ser alfabetizada!

Quanto à reação dela, houveram vários momentos maravilhosos. Ainda lembro um dia que ela pediu para almoçar “Espaguete a Bolonhesa”. Você não acredita a cara de felicidade dela ao ver um prato de espaguete chegar para o almoço. Nunca vi a Clara comer tanto e com tanto gosto! Além disso, ela já nos contou coisas incríveis e demonstrou ter um conhecimento fantástico de coisas que eu nem imaginava que ela sabia.

Uma das coisas que ainda me emociona é que ela já assistiu a TODOS os filmes da Disney, e por meio do Livox eu perguntei: “Qual princesa da Disney que você é?”.

Ela disse que era a Ariel, do filme “A Pequena Sereia”, porque a Ariel é uma princesa que NÃO FALA. Ela perde a voz e fica quase todo o filme sem falar. Como eu saberia isso? Incrível ela ter se identificado justamente com a princesa que não fala! Lá pro final do filme acontece uma mágica e Ariel começa a falar, mas infelizmente nossa vida não é um filme de Walt Disney. Só que isso não quer dizer que não podemos fazer algumas mágicas e estamos felizes de termos criado algo mágico que está dando voz não apenas à minha filha, mas a milhares de brasileiros.

Como foi o processo para o desenvolvimento do Livox como ele é hoje?
Minha filha foi a primeira brasileira a fazer um tratamento com células tronco para Paralisia Cerebral e por isso consegui algumas amizades interessantes. Dessas amizades consegui trazer para a cidade do Recife um investimento estrangeiro para a montagem de uma clínica de fisioterapia de primeiro mundo, chamada Reamo Beike.
Com o crescimento da demanda e do interesse pelo Livox, comecei a trabalhar com fonoaudiólogas, terapeutas ocupacionais e pedagogas da Reamo para adequá-lo há uma ampla variedade de deficiências. Mas obviamente o melhor laboratório foi a minha casa mesmo, onde pude ver 24 horas por dia as dificuldades da minha filha, e com isso criamos no Livox recursos sem paralelos mesmo em softwares desenvolvidos nos EUA.

Quais os próximos passos para o projeto? Qual a expectativa de vocês?
Estamos criando novas versões do Livox, como por exemplo o “Livox Capta”, que vai permitir que pessoas que não usam as mãos possam utilizar o app com os olhos. Temos também o “Livox Now”, que é uma camada de inteligência artificial que permite que o app monte os conjuntos de acordo com o contexto de hora e local.

A expectativa é muito boa. Já temos milhares de brasileiros utilizando o Livox, de norte a sul do Brasil! Veja algumas de nossas viagens no nosso Facebook!
No entanto, precisamos da ajuda da mídia para que o Livox seja adotado como uma política pública. Afinal de contas são 15 milhões de pessoas no país que precisam do Livox e sem a participação do governo é impraticável conseguir levar a tecnologia a tantas pessoas, até devido às condições financeiras da maior parte da população. Então precisamos sensibilizar o governo para que as pessoas com deficiência possam ter acesso ao Livox.