Sobre os planos pra Secretaria da Cultura e outros assuntos


Concedi entrevista para a coluna da Sonia Racy (Direto da fonte) publicada no Jornal O Estado de São Paulo em 11/07/2011. Segue abaixo a íntegra.

Andrea Matarazzo fala sobre sua secretaria, cultura e política

Em tempos de Flip, o secretário Andrea Matarazzo está mesmo é cuidando de um festival bem paulista, o de Campos do Jordão, que vai até dia 24. A escolha de Matarazzo para a pasta da Cultura gerou críticas diversas, a mais contundente contra sua falta de experiência na área. Entretanto, o sobrinho-neto de Ciccillo Matarazzo – fundador do MAM de São Paulo e da Bienal – fez um mix de sua raízes na arte com a experiência administrativa nos setores privado e público. E levou para a nova função.

O senhor não foi à Flip…
Não foi possível, porque estamos no meio do Festival de Inverno de Campos do Jordão, um dos eventos mais importantes do nosso sistema de música. E tenho de estar lá.

Quais os principais desafios à frente da Secretaria?
Conseguir democratizar a cultura mantendo a excelência, ou seja, dar cultura de qualidade àqueles que não têm acesso a ela – seja pela distância geográfica, seja pela falta de poder aquisitivo.

Culturalmente, São Paulo vai bem?
O setor privado investe muito em cultura. Em teatro, por exemplo, temos na capital paulista o mesmo padrão das melhores cidades do mundo. O desafio é levar esse padrão para a periferia e para o interior. Tem sido feito um investimento grande. O orçamento da Secretaria de Cultura é da ordem de R$ 1 bilhão somando programas abrangentes. O Projeto Guri, por exemplo, que hoje tem 50 mil alunos, é um programa de inclusão social e iniciação musical. Ele está presente em 320 municípios e estamos ampliando para outras áreas. Temos dois conservatórios de boa qualidade, o de Tatuí e a Escola Paulista de Música, a Tom Jobim. Cada um com cerca de 1.500 alunos. Além das orquestras: a Jazz Sinfônica, a Banda Sinfônica, a Orquestra do Teatro São Pedro, a Orquestra Jovem do Estado e a Osesp. Só nessas atividades o Estado investe cerca de R$ 170 milhões por ano. Sem contar as Oficinas Culturais, que estão em 220 municípios, e o Programa Cinema na Cidade. Apenas 125 municípios paulistas têm cinemas instalados, portanto, estamos levando cinema para as cidades que não contam com salas.

O que mais o senhor está planejando para a Secretaria?
O MIS está passando por uma reestruturação, com a implantação do Cine MIS e dos Pontos MIS. Mas acho que a grande iniciativa neste momento são as Fábricas de Cultura, em parceria com o BID, que funcionam nos pontos de maior vulnerabilidade social de crianças e jovens. São prédios de 6 mil metros quadrados com vasta programação de cultura – voltada também para a formação. Já inauguramos fábricas na Vila Curuçá e em Sapopemba, ambos na zona leste.

O que o senhor pensa sobre a Lei Rouanet? As mudanças propostas pelo ex-ministro Juca Ferreira estavam no caminho certo?
Algumas, sim; outras, não. Principalmente o aspecto de descentralizar, reduzir o espaço de São Paulo, acho que não funcionava bem. Concordo que precisa de ajustes, de uma atualização, mas prefiro não dar palpite na pasta do outro. São Paulo tem uma política de incentivos bastante importante. No ano passado foram R$ 90 milhões do Proac ICMS e R$ 25 milhões no Proac Editais.

O senhor vem de uma família de industriais e foi industrial. O que o levou para a política?
Sempre gostei muito da atividade empresarial. Nasci em uma família de industriais que ajudaram a construir o Brasil. O modelo para mim foi o Ciccillo Matarazzo, um grande industrial que dedicou parte da vida à cultura. Eu o admiro principalmente pelo que implantou no Brasil: o MAC, o MAM, a Companhia Vera Cruz de Cinema, o TBC, a Bienal de São Paulo. Minha primeira experiência em governo foi no Ministério da Educação. Lá tive a chance de ver o tamanho do Brasil, quanto o País precisava evoluir; fiquei fascinado com a possibilidade de dar minha contribuição. A partir daí descobri uma vocação que sempre exerci com muito entusiasmo e prazer.

Como o senhor aproveita o pouco tempo livre?
Vou bastante ao cinema. Adoro passear pela cidade e, nos finais de semana, andar de motocicleta. Gosto muito de música clássica e de artes plásticas. A música clássica te transporta, te faz viajar pelo espaço.

O que o senhor acha dos políticos brasileiros?
Boa parte está dissociada do mundo real. Às vezes vemos algumas decisões que não “conversam” com a sociedade. Acho que falta atualização dos políticos, retomar o interesse público, que deve ser a principal visão de um político. E modernizar os conceitos.

O que o senhor achou do manifesto do conselho político do PSDB, presidido por José Serra, que diz que o principal inimigo do partido é a disputa interna.
A disputa interna é o maior inimigo de qualquer partido ou de qualquer organização. O PSDB tem uma extensa folha de serviços prestados ao País, e eu acho que isso foi reconhecido pela sociedade nos 44 milhões de votos que o Serra teve na eleição. Concordo com ele quando diz que as disputas internas são o pior inimigo do partido.

O senhor não acha que o PSDB está sem rumo?
Não. Acho que precisa de um processo de reciclagem em função das próprias mudanças que o País viveu e está vivendo. O ambiente político é muito dinâmico; é preciso dosar a oposição em função dos momentos e dos argumentos. O PSDB não faz oposição pelo prazer de fazer oposição, mas quando tem argumentos fortes.

O senhor nunca disputou um pleito majoritário. Fica tentado?
Meu perfil sempre se adequou mais ao executivo. Acho que a eleição para a Prefeitura de São Paulo é uma que eu gostaria de disputar algum dia.

Vai ser na próxima, secretário?
Depende das circunstâncias, do governador e do partido.

O senhor já está conversando com o governador?
Ainda não tive essa conversa.

O que o senhor acha de o partido fazer prévias para presidente?
Prévias são sempre positivas. Elas ajudam o partido a chegar nos melhores nomes.

Na época em que estava na coordenação das subprefeituras, o senhor ganhou fama de xerife. O que acha desse rótulo?
Eu usava o mesmo peso e a mesma medida para todas as pessoas, era preciso cumprir a lei. O segredo é ouvir as pessoas e fazer as coisas com entusiasmo. Não sei qual o sentido que deram a “xerife”, só cumpri o papel que me foi designado.