Artigo de José Serra sobre o governo Dilma


O vereador Andrea Matarazzo ressalta em discurso  artigo publicado por José Serrano jornal O Estado de S. Paulo, que retrata o que vem acontecendo na economia.

Sr. Presidente, Srs. Vereadores, é um prazer estar aqui.

Quero dizer que o nobre Vereador Paulo Fiorilo, efetivamente, devia falar sobre a Universidade Aberta, um tema interessante. E, no que me consta, a Prefeitura se esqueceu desse tema ou o Secretário de Comunicação, Sr. Nunzio Briguglio Filho, esqueceu-se do assunto e tem deixado o Prefeito Fernando Haddad levando tiros no pé todos os dias.

Então, nobre Vereador Fiorilo, em vez de V.Exa. falar sobre as ficções, como V.Exa. fez aqui ontem, falando da cidade imaginária, daquela São Paulo imaginária, cheia de obras, e me confundi se V.Exa. falava de São Paulo imaginária ou de Patópolis, a cidade do Mickey Mouse, porque V.Exa. se referiu a “cartel do PSDB”. Isso seria o PSDB cartelizando outros partidos, e me parece que o PSDB nunca fez isso. O que há é um cartel de empresas que está sendo julgado em São Paulo e em Brasília – e, pelo que me consta, este último é de um governo do PT, de Agnelo Queiroz, ou o PT prefere que não seja?

O Sr. Paulo Fiorilo (PT) – – Se V.Exa. me concede aparte, podemos fazer um debate sobre isso.

O SR. ANDREA MATARAZZO (PSDB) – Já, já. Não quero falar nesse assunto. Brasília é onde a polícia fez greve outro dia, se não me engano. Enfim, então essas discussões estão todas lá.

E o nobre Vereador Reis, a quem prezo muito, vem repetindo o discurso. Não sei qual é a técnica, mas o discurso de hoje era o mesmo de ontem, se não me engano.

Concederei aparte ao Vereador Reis e, ao final, para o nobre Vereador Fiorilo.

O Sr. Reis (PT) – Nobre Vereador, ontem não foi possível terminar o raciocínio, mas continuarei na próxima semana falando sobre o caos no Metrô. E também falarei sobre o caos na Segurança Pública, sobre o caos no sistema prisional, sobre o caos na Sabesp.

Tenho grande prazer em trabalhar com V.Exa. nesta Casa, de tê-lo como Colega. Inclusive, fiz indicação ao Governador Geraldo Alckmin para que V.Exa. ocupasse a Casa Civil do Governo do Estado de São Paulo.

O SR. ANDREA MATARAZZO (PSDB) – Muito me honrou!

O Sr. Reis (PT) – Aliás, fizemos abaixo-assinado e colhemos 32 assinaturas, 32 Srs. Vereadores manifestaram a vontade de ver V.Exa. na Casa Civil do Governo Alckmin. Com certeza, os desmandos que acontecem no Metrô, na Segurança Pública, na Educação e na Sabesp, creio, nada disso teria acontecido.

Acho que V.Exa. é iluminado, é competente. Com certeza, sei do prejuízo que há no Governo Tucano de não tê-lo por perto, colocando rumo naquela nau desgovernada chamada Governo do Estado de São Paulo, capitaneada pelo Sr. Geraldo Alckmin.

O SR. ANDREA MATARAZZO (PSDB) – Muito obrigado pelos elogios. Pensei que as assinaturas eram para me tirar da Casa, para me verem longe!

O Sr. Reis (PT) – De forma nenhuma! Com V.Exa. lá estaremos bem representados.

O SR. ANDREA MATARAZZO (PSDB) – Mas V.Exa. falou de caos, eu não ia falar de caos, mas vou ser obrigado.

Tinha me comprometido, aliás, me comprometi com o Líder de V.Exa., o Vereador Alfredinho, em dar uma trégua de 30 dias quanto a fazer oposição. Mas peço um favor, não deixem que o Secretário Briguglio Filho nem que a Secretária Leda Maria o façam! Caso ocorra, eu saio do acordo. Ela ainda não se filiou ao PSDB, mas mandei as fichas… Realmente, eu vou esperar os 30 dias, não farei oposição, mas, por favor, segura os Srs. Secretários para não me substituírem na Oposição.

Vou ler um texto interessante, por estarmos falando de caos.

“Governos existem para controlar as circunstâncias, não para ser controlados por elas; governos existem para irem adiante, e não atrás dos acontecimentos; governos existem para cercar as margens de erro, antecipando-se aos problemas, não para elaborar desculpas implausíveis; governos existem para informar-se sobre o futuro e as consequências dos seus atos – não com bola de cristal, mas com os dados objetivos fornecidos pela realidade -, não para confundir a embromação com o otimismo.

Isso tudo é querer demais? Pode ser. Mas, digamos, nosso problema principal não é o tamanho do superávit primário, a seca que vai subtrair água e energia, o tapering do Banco Central dos EUA ou as matérias de duvidosa qualidade da The Economist e doFinancial Times, mais alarmistas que o devido. A questão essencial no Brasil de hoje é outra: a excessiva distância entre o que o governo deveria ser e o que é. Essa distância, que não para de se ampliar, é o nosso problema número um.

Estamos colhendo, literalmente, o que temos plantado. Quando plantamos direito – caso do agronegócio, que tem livrado o Brasil de um vexame na balança comercial dos últimos anos -, colhemos bons frutos. Quando plantamos o erro, o que se colhe é… uma safra de erros.

O déficit em conta corrente do balanço de pagamentos, problema número um da economia brasileira, que a torna tão vulnerável às apostas do mercado financeiro internacional, tem como causa principal o déficit comercial do setor industrial, que no ano passado foi de espantosos US$ 105 bilhões. Essa situação resultou de uma escolha da política econômica lulista, muito especialmente a partir da crise internacional de 2008/2009.

Aqui e ali, multiplicam-se as críticas sobre a perversidade do farto financiamento do BNDES a alguns setores da indústria, algumas fundadas, outras nem tanto – e não vou entrar no mérito neste texto, a merecer outro artigo. Ou, ainda, há quem atribua isso ao “fechamento da economia”, embora ela não pare de se abrir. A questão essencial, porém, é outra. O governo brasileiro assiste inerme a um processo de desindustrialização – a grande marca do governo Lula – que cobra um preço social altíssimo no médio e no longo prazos, já que é o setor que paga os melhores salários e que força com mais velocidade a especialização da mão de obra.

A escolha dos governos do PT foi torrar o dinheiro proveniente tanto dos altos preços das nossas exportações de produtos agrominerais como da abundância de capital externo barato. Como mencionou o professor Edmar Bacha, entre 2004 e 2011 tivemos uma farra econômica no Brasil: nada mais nada menos do que 25% do aumento do gasto doméstico foi financiado por esses dólares. Tudo para consumir e substituir produção doméstica. Pouco ou nada para fortalecer a competitividade da economia, elevando os investimentos públicos e privados e a oferta de bons empregos. Tudo para elevar a carga tributária que sufoca a produção e castiga proporcionalmente mais os setores sociais de menores rendas, via tributação indireta. Pouco ou nada para dar sustentação permanente à elevação do padrão de vida.

Pior ainda. O governo fez o possível para atrapalhar a Petrobrás, atrasar os investimentos em novos campos, travar as concessões de estradas, dentro de sua ideologia mais profunda: transformar facilidades em dificuldades. Isso nos privou de um precioso vetor de crescimento da economia, pelo lado da demanda e da produtividade.

A despeito das fanfarronices sobre a suposta agilidade do Brasil nos negócios externos, a verdade é que, das grandes economias, o Brasil é o único que não celebrou pactos comerciais bilaterais. Foram centenas no mundo nos últimos dez anos. O Brasil firmou só três: com Israel, Palestina e Egito… Ao contrário: continua amarrado ao Mercosul – o maior erro cometido pelo Itamaraty na sua história moderna, reiterado por cinco governos diferentes. E vejam bem: o estorvo essencial do Mercosul não vem dos Kirchners. É fruto da estultice da ideia de fazer dele uma união alfandegária, que suprimiu a soberania comercial no Brasil. Se, por exemplo, fizéssemos um acordo comercial com a Índia, seria preciso que todos os outros parceiros fizessem parte também… O País não se pode dar o luxo de acumular sucessivos, crescentes e escandalosos déficits na indústria sem considerar que está, obviamente, com problema.

Nada é tão deletério para nós, no que concerne ao futuro, como os erros de análise de perspectiva do governo brasileiro no que diz respeito ao cenário internacional. Tome-se o caso do atual estresse envolvendo a fuga de investidores – os de curto prazo – para EUA e Europa em razão da retomada do crescimento dessas economias: mais forte a americana; ainda modesta, na média, na zona do euro. Chega a parecer piada, mas é verdade: não faz tempo se falava por aqui numa verdadeira ‘guerra cambial’ em razão da enxurrada de dólares que os EUA injetaram na sua economia. Foi uma gritaria danada. Agora que começa o movimento contrário e os dólares estão vindo menos, em vez de chegarem mais, ouve-se o mesmo alarido. Nos dois casos, há uma tendência de culpar os países ricos, mas a fragilização da nossa economia, tornando-a mais suscetível aos ataques especulativos no âmbito do sistema financeiro internacional, foi precisamente obra do governo Lula-Dilma.

Poderíamos ter-nos protegido dessa volatilidade? Se o ambiente fosse, por exemplo, mais favorável aos investimentos, em vez de o Brasil estar agora lamentando a retomada da economia americana e a melhora na zona do euro, estaria comemorando. E por dois motivos: porque investimentos realmente produtivos não fogem do País da noite para o dia e porque, tivesse uma indústria mais competitiva, estaria se preparando para disputar mercado. Ocorre que essas coisas não se fazem assim, no improviso, da noite para o dia. No fim das contas, é a incapacidade de planejar, ditada por uma leitura capenga do que vai pelo mundo, que nos leva a esse modelo que vai da mão para a boca.

Apertem os cintos. O governo sumiu!”

Esse é um artigo publicado hoje pelo Governador José Serra, ex-Prefeito de São Paulo, ex-Ministro da Saúde, no jornal O Estado de S. Paulo, que retrata o que vem acontecendo na nossa economia, e com uma didática poucas vezes utilizada.

Infelizmente, esse é o modelo que o Governo Federal enfiou goela abaixo dos brasileiros durante todo esse tempo, e agora a conta começa a ser cobrada. Não há almoço grátis, e o hoje o Brasil percebe que realmente não há, e por isso paga um preço caro.

Concedo aparte ao Sr. Paulo Fiorilo.

O Sr. Paulo Fiorilo (PT) – Obrigado, nobre Vereador Andrea Matarazzo. Pena que não vou poder dialogar com o artigo do ex-Governador José Serra.

É interessante porque, logo após a eleição de Lula, ouvia os tucanos de grandes plumagens dizerem que o Governo Lula só estava dando certo porque era uma continuidade do Governo Fernando Henrique, como a política econômica, a política de renda; tudo era continuidade. O Governo deu certo, distribuiu renda, cresceu. É óbvio que vivemos uma conjuntura em que internacionalmente há abalos. O capitalismo é assim, ele não é estável, mas esse não é o tema que gostaria de retomar, até porque iniciamos um debate anterior, V.Exa. citou meu nome e gostaria de continuar.

Com relação à Universidade Aberta, a Prefeitura se reuniu com as Universidades do Paraná, do Triângulo Mineiro, de São Paulo, de São João Del Rei, de Ouro Preto e com as Federais de São Paulo, de São Carlos, de Juiz de Fora, Fluminense, de Minas Gerais e do ABC. E foram acordados 125 cursos de especialização, 12 de aperfeiçoamento e 31 de licenciatura para os professores da rede pública, da rede estadual e conveniados.

Segundo, quando fiz referência a cartel, é óbvio que ele não é partidário. Ele é de empresas que agiram e atuaram nos governos do PSDB ao longo desses anos; isso todo mundo acompanha, todo mundo sabe. Mas, para precisar, vamos falar do cartel do trem do metrô que foi constituído no governo do PSDB.

Faço um reparo, o que está sendo apurado no Distrito Federal é do governo do DEM, que teve denúncia e que tem a história do mensalão. Toda apuração é bem-vinda. Não podemos fazer um debate dizendo que se apura mais ou se apura menos. Quem erra, paga, e de acordo com a lei. Do mesmo jeito que o PT tem companheiros julgados, o PSDB terá – e deve ser agora. Por isso não podemos esconder. O mensalão do PSDB tem de ser julgado. Ele demorou muito e demorou mais que o do PT: essa é a diferença.

O SR. ANDREA MATARAZZO (PSDB) – Mas será julgado, nobre Vereador Paulo Fiorilo. Fique tranquilo.

O que importa para aquelas pessoas que estão nos ouvindo e aquelas que votaram em nós? Claro que o nosso papel é fiscalizar o Executivo. Mas, essencialmente, se quisermos fazer o debate correto em relação aos Transportes, vamos fazer. Aquilo que o nobre Vereador Vavá estava comentando, neste Plenário, sobre as condições dos motoristas, dos ônibus e das pessoas no metrô. Enfim, aquilo que interessa efetivamente ao usuário do transporte. Essa é a questão.

Mas ficar politizando essa questão não vai resolver o problema daquela pessoa que leva duas horas, duas horas e meia, para vir de ônibus da zona Sul até o Centro. Nem daquele que tem de sair do Centro para voltar para casa na zona Leste. Vamos ficar discutindo política e a população de São Paulo continuará sofrendo e dormindo menos do que cinco horas por noite, na cama – o que é uma tristeza. Isso não me parece que seja condição de vida numa cidade que se pretende moderna. Aliás, se o Sr. Prefeito pretende chegar a Xangai, como disse, menos ainda. Então, temos de debater aquilo que o nobre Vereador Vavá comentou.

S.Exa. é um sujeito que tem o pé no chão, até porque veio da área do transporte e conhece aquilo como ninguém. Esse é o grande valor do Vereador Vavá. S.Exa. fez uma carreira brilhante para chegar nesta Casa, onde tem a oportunidade de nos dizer o que precisa ser feito para melhorar esse sistema que impõe tanto sofrimento à população na nossa Cidade, às pessoas que nos ouvem, àqueles que aqui trabalham e às pessoas que conhecemos.

Muito obrigado.