Concertos para libertar a emoção


Detentas da penitenciária do Butantã se emocinam com apresentação de um dos maiores pianistas brasileiro, Marcelo Bratke

Mal o pianista Marcelo Bratke terminou de executar o prelúdio de “Cravo Bem Temperado” do clássico Johann Sebastian Bach, Luiza (nome fictício), de 53 anos, irrompeu em aplausos fortes. Mas, quando a salva de palma da plateia ainda estava pelo meio, ela os cortou abruptamente para que suas mãos pudessem enxugar as lágrimas. “Estou muito emocionada”, disse Luiza, uma das 360 detentas da Penitenciária Feminina Dr. Marina Marigo Cardoso de Oliveira, localizada no Butantã, na Zona Oeste da capital, que assistiram neste domingo, dia 19, a apresentação de Bratke, considerado um dos três maiores pianistas brasileiros.

A capela da instituição presidiária foi o palco para o músico que se apresentou em um piano de cauda. No repertório, J.S.Bach, Ernesto Nazareth e Tom Jobim, compositores que foram inspiração para Villa-Lobos ou fizeram dele sua referência.
Durante a execução das músicas, foram exibidas imagens de paisagens do Brasil de Norte ao Sul, filmadas pela artista plástica Mariannita Luzzati, – mulher do pianista e autora do projeto. “A ideia é que esse momento seja uma janela na memória de alegria, emoção e contemplação para elas”, explicou Bratke, emocionado após a apresentação.

Luiza soube se posicionar na janela que lhe abriram no final da tarde de domingo e aproveitar bem a visão. Há dez anos cumpre pena por homicídio, não viu a filha crescer e tampouco estava perto quando a menina, que começou a estudar violino aos 9 anos, tocou a primeira música.
Graças ao bom comportamento, no indulto no Dia dos Pais, viu pela primeira vez a filha, hoje com 17 anos, se apresentar junto com a orquestra da qual faz parte.

“Naquele dia, senti tudo junto. É inexplicável. Fiquei pensando no tempo que perdi. Ela é minha paixão. Agora, nessa apresentação estou revivendo aquele momento”, disse Luiza, uma apaixonada por música.

Ela participa do coral nas apresentações de Natal do presídio e até cantava no grupo de canto de uma igreja evangélica que faz culto na instituição. Mas gosta mesmo é de Djavan, Gilberto Gil e Chico Buarque. “Sabe aquela? ?Pai! Afasta de mim esse cálice. De vinho tinto de sangue…?”, cantorolou a música “Cálice”, de Chico Buarque.
Quando Bratke anunciou que executaria “Luiza”, de Tom Jobim, ela não se conteve: “Essa letra é linda. Aguenta coração”. E foi com o nome da canção que ela pediu que fosse identificada na reportagem do DIÁRIO.

Enquanto se deixava levar pela música, Luiza também se perdia nas paisagens que eram exibidas. “Presa aqui dentro, isso dá uma saudade doída.”
Ideia é levar o projeto para outros presídios

O concerto do pianista Marcelo Bratke já rodou mundo – e fez sucesso. No presídio, o público feminino encarcerado também soube aplaudir de pé. E emocionaram o músico quando durante a execução de Cirandinhas, de Villa-Lobos, elas se libertaram da timidez e cantaram os versos de “Se essa rua fosse minha” e o “Cravo e a Rosa”.

“Estou emocionado. É uma situação diferente por causa do perfil do público, mas também encontrei muito calor humano aqui, o que mostra que as pessoas estão sedentas de alguma coisa. Elas vão voltar para a sociedade. Então, temos que fazer algo para melhorar a vida delas aqui dentro”, disse Bratke.
A apresentação na Penitenciária Feminina é uma projeto experimental das secretarias estaduais de Cultural e Administração Penitenciária. A ideia agora é avaliar a possibilidade de levar para outras unidades do estado.

“Queriam fazer eventos com foco na sensibilidade. Música clássica de alta qualidade e bem executada todo público gosta. E o Marcelo Bratke é uma pessoa que tem uma história pessoal que inspira as pessoas a batalharem”, observou o secretário de Cultura, Andrea Matarazzo.
O pianista Marcelo Bratke por mais de 30 anos escondeu do público que era cego de um olho. Ele só revelou o segredo quando fez a operação em 2007.

DIÁRIO DE SÃO PAULO – JUSSARA SOARES