Cultura por vocação – parte I


Andrea Matarazzo fala dos desafios da cultura e a importância de levar espetáculos e shows de qualidade para toda população. O Secretário destaca ainda a nova Virada Cultural Paulista e o projeto das Fábricas de Cultura

Entrevista publicada na Revista Taxi Cultura – Edição 01
Por Waldir Martins – 15/02/2011

Depois de percorrer as mais diferentes áreas da vida pública, passando por cargos como o de presidente da Cesp – Companhia Energética de São Paulo, Ministro das Comunicações do Governo Fernando Henrique e ainda Embaixador do Brasil na Itália, entre muitos outros, Andrea Matarazzo desenvolveu uma visão bastante ampla do Brasil e dos brasileiros. Ao assumir a Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo passou a coordenar uma série de ações que pretendem levar arte e cultura para todo interior do Estado e também implementar programas de excelência em comunidades da periferia da Capital.

Em uma conversa aberta, franca e informal, Matarazzo contou para a Táxi Cultura um pouco sobre a sua trajetória e as propostas que tem à frente da Secretaria.

Táxi Cultura:
O Senhor é dono de uma trajetória bastante rica e diversificada, já tendo assumido diferentes cargos de diferentes áreas da administração pública. De onde vem essa vocação?

Andrea Matarazzo:
O que determinou minha vocação para o setor público foi o convívio com o Cicílio Matarazzo. Um grande industrial, mas, ao mesmo tempo, com uma vocação para atender ao segmento público. Foi ele quem criou e financiou a Bienal de São Paulo, o Teatro Brasileiro de Comédia, o Museu de Arte Moderna, o Museu de Arte Contemporânea, entre outras iniciativas. Havia uma coisa que ele dizia e que me marcou muito: a pessoa só entra para história se fizer algo que esteja acima dos seus interesses.

Táxi Cultura:
E qual a motivação hoje à frente da Secretaria de Estado da Cultura?

Andrea Matarazzo:
O fato de ter passado por todas essas áreas proporciona um grande conhecimento. Além da formação familiar que tive, com oportunidades de viajar e conhecer muitas pessoas, os cargos que assumi no setor público me fizeram aprender muito sobre as adversidades e a diversidade do Brasil. Principalmente quando passei para a Secretaria de Subprefeituras, em que pude conhecer muito mais a cidade de São Paulo.

Uma cidade como São Paulo é muito bem suprida em relação à cultura. Equivalente aos grandes centros do mundo: Londres, Paris, Nova Iorque. O problema é que aqui tudo é muito concentrado ao público A. E a intenção do Estado é ampliar a diversidade desse público. Primeiro é interiorizar a cultura, levá-la a todo Estado de São Paulo; esse é um ponto importante. Segundo, poder oferecer às pessoas que não têm acesso à cultura, às camadas menos favorecidas, esse mesmo tipo de programação.

Uma das principais ações nesse sentido é a implementação das Fábricas de Cultura na peri-feria de São Paulo. São nove equipamentos de muita qualidade que estarão funcionando já a partir do meio do ano. Cada unidade terá oficinas culturais, exposições, cursos, e uma série de outras atividades.

Táxi Cultura:
A essas ações não se soma a necessidade de formar novos públicos?

Andrea Matarazzo:
As Viradas Culturais sempre recebem um número incrível de participantes. Nas oficinas culturais, todas as vagas são preenchidas. No projeto Guri, todas as vagas estão sempre lotadas. Hoje a sociedade já demanda cultura de uma forma muito intensa.

Criar plateias é algo importante. Existe, por exemplo, um subsídio forte para aumentar o público de cinema e teatro. Oferecemos ingressos de teatro com preço popular para 12 espetáculos. No ano passado distribuímos 2,5 milhões de ingressos de cinema para alunos, policiais militares e civis, exatamente com o objetivo de criar platéias. O circuito cultural que fazemos por 70 cidades do Estado, onde, todo mês, na mesma data, é apresentada uma atenção diferente. Mesma coisa com a Viagem Literária; todo mês um autor vai discutir sua obra com a população. Isso vai criando plateias e vai criando frequência. Levar o conhecimento com frequência termina por criar o interesse.

Táxi Cultura:
Desse modo, a cultura tem na formação das pessoas a mesma importância do que a educação?

Andrea Matarazzo:
Vejo a cultura como um componente na vida das pessoas, com o mesmo valor que a educação. Ela amplia o horizonte de acesso ao mundo. A falta de cultura limita as pessoas. Nesse contexto, uma coisa muito importante são as bibliotecas. Nós fizemos a biblioteca de São Paulo, no Parque da Juventude, onde era o Carandiru, com uma mudança de conceito na leitura. Ela recebe 35 mil visitantes por mês. Mesmo público que recebe o Museu do Futebol, o Espaço Catavento Cultural, por exemplo. Porque ela foi concebida dentro desse novo conceito. Não apenas um local que sirva como armazém de livros. Mas um lugar moderno, confortável que crie um interes-se na família toda. Tem jornais, revistas semanais, revistas em quadrinhos, livros, equipamentos multimídia, filmes nacionais, blockbusters norte americanos e até os grandes clássicos.

O público não é dirigido a nada, ele que escolhe o que quer ver e o resultado é um grande sucesso. A Biblioteca fica aberta aos fins de semana. Um coisa, aliás, que precisa mudar: a biblioteca não pode funcionar como uma repartição pública. Não pode fechar nos finais de semana e nem na hora do almoço. Agora estamos fazendo uma segunda biblioteca onde era a FEBEM do Tatuapé. Isso é outra coisa interessante, construímos a primeira onde era o Carandiru e agora a segunda no Tatuapé.