A destruição de um bairro


A família Franco Alves vive há 70 anos na Vila Madalena. São três gerações escrevendo sua história na esquina das ruas Fidalga e Aspicuelta, presenciando a transformação daquela vila tranquila no badalado reduto de bares e restaurantes.

Na semana passada, a família resolveu deixar o bairro. Não aguentou mais a balbúrdia que já havia se instalado por lá na Copa e que agora, no Carnaval, saiu totalmente de controle. A família Franco Alves é mais uma vítima da desordem urbana da gestão Haddad.

O Carnaval na Vila Madalena sempre existiu. Era uma festa local, respeitando os limites do bairro. A atual “Prefeitura do Oba Oba”, porém, resolveu incentivar os blocos a ocuparem a vila sem pensar nos transtornos causados aos moradores e nem na infraestrutura necessária.

A consequência é a desvalorização da Vila. Comerciantes planejam tirar suas lojas de lá. Moradores vendem suas casas à primeira oferta. O preço do metro quadrado cai. O que é um bairro boêmio da cidade poderá se transformar numa nova área degradada.

Não é para menos. O uso das ruas em festas populares seria interessante se houvesse atuação da Prefeitura. Mas o prefeito não cumpre sua parte. A interdição do trânsito é falha. Há falta de banheiros químicos, que transforma ruas em sanitários a céu aberto. A Lei do Silêncio não é respeitada, impedindo o sono de quem trabalha. Não há fiscalização dos ambulantes, que vendem todo tipo de bebida alcoólica e clandestina. Em resumo, o caos.

Deixo claro aqui que não sou contra o Carnaval de rua. Pelo contrário. A festa deve ser incentivada para atrair turistas e dar opção de lazer a seus moradores. Mas deve ser feita com ordem e respeito e em lugares adequados.

O número de blocos autorizados deve ser restrito à capacidade de cada região. Carros com som alto que promovem verdadeiros bailes à margem da lei devem ser apreendidos. A festa deve se dar em locais abertos, amplos, sem vocação residencial. Blocos no Largo da Batata incomodam muito menos do que nas ruas da Vila Madalena.

O Carnaval deve ser descentralizado. Cada bairro deve ter seus blocos e cordões, unindo as famílias. Quando necessário, com patrocínio oficial. E, acima de tudo, a administração deve fazer sua parte. Cuidar do trânsito, da segurança, da instalação de banheiros e do direito de ir e vir. Pena que a gestão Haddad prefira trabalhar com o conceito de estragar o que está bom e piorar o que está ruim.

São Paulo tem desmentido a cada ano o apelido de túmulo do samba. Mas não pode ter o codinome substituído para a desordem do samba.

*Artigo de Andrea Matarazzo publicado no jornal Diário de S. Paulo

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