Morte anunciada – uma trama real


Uma rápida busca na internet de vídeos registrando imagens da atuação de bandos de black blocks pelas ruas das principais capitais do País nos revela uma assustadora cronologia. Se partirmos dos primeiros registros de danos ao patrimônio, passando pela covarde agressão ao coronel da PM Reynaldo Simões Rossi (no Parque Dom Pedro) ou do soldado Wanderlei Paulo Vignoli (na Praça da Sé), até a morte do cinegrafista Santiago Andrade, construiremos uma sequência de imagens que nos colocam diante de crimes e barbáries em escala crescente.

No enredo dessa trama real, há uma completa inversão de valores, difundida em redes sociais e sustentada em discursos políticos quase sempre demagógicos: bárbaros e criminosos são transformados em mocinhos e os que têm por fé de ofício defender a ordem e garantir a segurança da população são tachados de vilões e agressores.

Em outubro do ano passado, quando o coronel Rossi foi cercado por vândalos, o sinal de alerta foi ligado, sinalizando que a continuar a inversão de valores, logo chegaríamos a desfechos dramáticos. A morte de Santiago Andrade escancara para sociedade que o sinal agora é vermelho, cor de sangue.

O trágico desfecho da cobertura jornalística feita pelo cinegrafista da TV Bandeirantes traz à tona a expressão “tragédia anunciada”, remetendo ao livro “Crônica de uma morte anunciada”, famosa obra do escritor Gabriel García Márquez. O romance conta a história de um homem que, acusado de ter desonrado uma mulher, é jurado de morte pelos irmãos desta. Essa vingança torna-se pública e agita a cidade. O leitor, desde o início da história, sabe do destino trágico do acusado, que acabará morto a facadas. Todos naquela cidade sabiam que ele morreria. Ninguém o avisou. A moça supostamente desonrada chama-se Angela. O personagem acusado, na trama do escritor colombiano, também se chama Santiago. Santiago Nasar.

Da ficção voltemos para a realidade brasileira. Essa tragédia estava anunciada. Quantos outros Santiagos ainda serão mortos por conta de discursos politicamente corretos e irresponsáveis apologias pró-violência? Vivemos um momento de descontrole, e falta às autoridades que tomem, com equilíbrio, as medidas que a sociedade espera delas.

Artigo publicado em 13/02 no jornal Diário de S.Paulo