O preço da demagogia


O ano de 2014 foi um dos mais secos da história da cidade de São Paulo.

O mês de outubro foi o segundo com menos chuvas nos 71 anos em que o Instituto Nacional de Meteorologia faz essa medição. O tempo seco deu uma excelente oportunidade para que a prefeitura agisse preventivamente para evitar tragédias quando os primeiros temporais do verão atingissem a cidade.

​Mas não foi o que aconteceu. Pelo contrário. Desconectado do dia-a-dia da cidade e mais preocupado em medidas demagógicas, o prefeito Fernando Haddad preferiu pintar faixas vermelhas no chão das ruas paulistanas a podar árvores em risco, limpar bueiros, galerias e córregos.

O resultado da inoperância e da omissão foi constatado pelos paulistanos nos últimos dias. Na primeira grande chuva da estação, um comerciante morreu ao ser atingido por uma árvore que despencou sobre um táxi. A tipuana estava no mapa de risco e sua poda havia sido pedida pelos moradores de Higienópolis e ignorada pelas autoridades. Na última segunda-feira, uma tempestade derrubou 286 árvores pela cidade, fechou o Parque do Ibirapuera e deixou 139 semáforos sem funcionar.

A chuva, sem dúvida, foi muito forte. Mas não serve de desculpa para o fracasso da administração municipal. Um software foi desenvolvido há sete anos pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas para avaliar o risco de quedas de árvores. Mas apenas 48 mil das 650 mil árvores em calçadas foram cadastradas e passaram a ser acompanhadas —o equivalente a pouco mais de 7%.

As temporadas de chuvas são previsíveis. Não há mágica para atenuar enchentes, quedas de árvores e semáforos em eterno amarelo piscante. É preciso planejar e trabalhar muito. A construção de piscinões atenua um pouco o problema, mas logicamente não acaba com ele. Há pontos de alagamentos históricos, como o vale do Anhangabaú, onde as galerias foram construídas há muitos anos e nunca foram ampliadas. Bem como trechos da Radial Leste e inúmeros outros lugares conhecidos que precisam de atenção permanente.

A manutenção é essencial para que o sistema funcione em condições razoáveis. No período de secas, que vai de abril a setembro, é preciso capinar e limpar permanentemente os córregos para evitar que acumulem lixo e fiquem assoreados. Fazer a poda de árvores podres ou que estejam na fiação evita quedas e acidentes. É preciso também pressionar a Eletropaulo a fazer sua parte. E, principalmente, desocupar áreas de risco para evitar futuras tragédias.

​É necessário limpar permanentemente e desentupir as bocas de lobo e os milhares de quilômetros de galerias, além de manter um serviço constante de cata bagulhos —caminhões que circulam pelos bairros para coletarem grandes objetos dispensados pela população. Limpar piscinões, verificar os sistemas de bombeamento de água, reprogramar a coleta de lixo, preparar a Defesa Civil… O trabalho é duro e exige um prefeito dedicado e presente, que goste da cidade. Não alguém que transforme a cidade em laboratório de ideologias ultrapassadas como Fernando Haddad.

​Em entrevista, o prefeito comparou a chuva de segunda ao furacão Katrina. Imagine se a comparação tivesse sentido. Sorte do paulistano que por aqui não há furacões. É o mínimo para compensar o azar de ter um prefeito tão inexperiente.

 

 

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