Política e cidade limpas


Todos sabemos o imenso apoio que a Lei Cidade Limpa recebeu quando foi implantada em São Paulo, em 2007. Na época, pesquisas apontaram 90% de aprovação às novas regras, que retiraram das vias públicas toda propaganda exagerada, banners, gigantescas capas sobre edifícios, outdoors, faixas, placas, entre muitos outros.

A mudança radical nos fez ver uma São Paulo que muitos paulistanos não conheciam. De repente, apareceram parques, prédios de arquitetura interessante, fachadas, árvores e uma nova paisagem que antes estava escondida atrás de placas, falsas marquises, pórticos e outras estruturas. Ao redescobrir sua cidade, as pessoas passaram a admirá-la ainda mais. Hoje, os próprios cidadãos defendem a lei e denunciam abusos, ajudando o poder público a fiscalizá-la.

Qual não é nossa surpresa ao nos depararmos com a legislação eleitoral que revoga toda esta situação de ordenação da paisagem urbana. Contrariando o desejo dos cidadãos, destrói esta conquista tão cara a todos os paulistanos, demonstrando o quanto nossos políticos estão distantes da sociedade, a ponto de votarem e aprovarem leis que a afrontam. A meu ver, é um exemplo de legislar em causa própria.

Tenho certeza de que a nova regra será interpretada como antipropaganda, sobretudo pela população paulistana, que nutre tanto apreço por suas vitórias – como a da despoluição visual.

Mesmo assim, talvez um ponto positivo disso é o fato de que esta regra pode se tornar um instrumento útil, indicando aos eleitores aqueles candidatos nos quais não deveremos votar. Os materiais que estão nas ruas poderão sugerir, com nome, número de legenda, fotografia e partido, quais as pessoas que não merecem nosso voto, já que desprezam nossa opinião. Incrível! Antes mesmos de serem eleitos, alguns políticos já mostram que se “lixam” para os anseios do eleitor e desrespeitam o bem público.

Portanto, da mesma forma com que os eleitores já estão atentos para votar apenas em candidatos fichas-limpas, sugiro que também procurem aqueles que, além de sua história política, se preocupam em manter sua cidade limpa.

Andrea Matarazzo é secretário estadual de Cultura

Diário de São Paulo
Formador de Opinião