Na Folha: ‘Haddad não conhece a USP nem a cracolândia’, diz Matarazzo

Na Folha.com, por Vera Magalhães – 08/11/2011 – 15h36

A ação da Polícia Militar para desocupar o prédio da reitoria da USP desencadeou um debate antecipado entre os pré-candidatos a prefeito de São Paulo.

O secretário de Estado da Cultura, Andrea Matarazzo, um dos postulantes à candidatura pelo PSDB, respondeu na tarde desta terça-feira ao ministro Fernando Haddad (Educação), que mais cedo disse que “não se pode tratar a USP como se fosse a cracolândia, nem a cracolândia como se fosse a USP”.

“Essa declaração mostra que o ministro Haddad não conhece o que se passou na USP nem na cracolândia”, disse Matarazzo à Folha.

E continuou: “A USP trata-se de baderneiros mimados e a cracolândia é um problema de saúde pública”.

Para ele, “depredação de patrim?nio público por meia dúzia de mimados se resolve com polícia”.

“Já a cracolândia tem de se tratar com médicos, internação e retaguarda para os usuários. É uma questão de tratamento”, afirmou.

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Pinheiros, síntese de São Paulo

Mercado de Pinheiros*

Considerado por muitos historiadores como o primeiro bairro de São Paulo, Pinheiros é um lugar que resume a cidade. Do comércio a vida cultural, tudo é intenso na região. Morei lá quando criança e acompanhei de perto o crescimento do bairro, que acompanhou o ritmo da metrópole.

O Mercado Municipal continua bonito e oferecendo produtos de qualidade. Quando estava na Prefeitura, lembro que ainda vendiam frangos vivos. Inaugurado em 1910, o Mercado de Pinheiros reuniu os primeiros varejistas e também um galpão para os atacadistas de batatas – de onde surgiu o nome Largo da Batata. Com a ampliação da Avenida Brigadeiro Faria Lima, em 1975, mudou de lugar, mas segue em pleno funcionamento.

Chance de viver

Desde a época em que implantei as melhorias na infraestrutura da região da Luz, como então subprefeito da Sé e depois secretário das Subprefeituras de São Paulo, há seis anos, venho observando atentamente o flagelo dos dependentes químicos na cracolândia.
Posso afirmar: viver em completo estado de degradação não é uma escolha consciente. Ninguém que esteja gozando minimamente de sua vontade própria pode considerar como opção a realidade dessas pessoas que seguem, todos os dias, a única alternativa que a droga lhes proporcionou como uma dura sentença de morte.
Todos sabemos quão forte e destrutivo é o vício e quão difícil é sair dele. Nos últimos dias, a internação compulsória tem sido citada como uma possibilidade real de tratamento para quem chegou ao último estágio da dependência.

As diversas nações do Bom Retiro

A mistura de migrantes e imigrantes que caracteriza a cidade de São Paulo é facilmente perceptível no bairro do Bom Retiro. Lá, é possível encontrar a influência de italianos, judeus, gregos, coreanos e chineses, além de brasileiros de várias partes do País. Ruas muito bonitas como a Cesare Lombroso, a Aimorés e a Carmo Cintra chegam a atrair 70 mil pessoas em um dia, pela variedade e pelo baixo preço das roupas.

Os italianos chegaram primeiro ao Bom Retiro, que, no começo do século XX, tornou-se um bairro operário pela proximidade com a Estação da Luz. Como homenagem aos pioneiros, fica lá a Rua dos Italianos. Em seguida, vieram os judeus, que criaram no bairro muitas confecções e deram à região a vocação comercial. Além das lojas que movimentam a Rua José Paulino e suas transversais, há ótimos restaurantes judaicos e diversas sinagogas.

A imigração de gregos aumentou no período da guerra civil na Grécia, de 1946 a 1949, e muitos se instalaram no Bom Retiro. Também especializados em tecidos e vestuário, trouxeram a culinária de seu país. O restaurante Acrópoles, inaugurado em 1959, serve, entre outros pratos típicos, mussaká e vitela ao forno.

Se hoje o Bom Retiro é conhecido pelas tendências de moda, parte da responsabilidade é dos coreanos, que trouxeram tendências internacionais e atraíram outras colônias orientais – hoje, o bairro só perde em concentração de orientais para a Liberdade. É comum ouvir pessoas conversando em coreano pelas ruas do bairro.

O comércio é o grande atrativo do Bom Retiro, mas lá também existem espaços como a Oficina Cultural Oswald de Andrade, na Rua Três Rios, que oferece cursos de artes; o Museu de Saúde Pública Emílio Ribas, na Rua Tenente Pena, com aparelhos médicos do começo do século XX; e a antiga residência da família Santos Dumont, na Alameda Cleveland, hoje inteiramente restaurada. Vale fazer um passeio ao bairro e ir além das compras.

Andrea Matarazzo

Foto: Secretaria de Estado da Cultura

Cidade Tiradentes, crescimento e arte

Como o próprio nome diz, Cidade Tiradentes é mais do que um bairro paulistano. Localizada no extremo leste de São Paulo, a 35 quilômetros do Centro, é como uma pequena cidade em desenvolvimento dentro da metrópole. Na década de 80, ser um bairro-dormitório foi a primeira função de Cidade Tiradentes, que abriga o maior complexo de conjuntos habitacionais da América Latina. Hoje, com 220 mil habitantes, tornou-se mais do que isso. A convivência intensa entre os moradores, a chegada de comércio e serviços transformaram a região.

A vitalidade de Cidade Tiradentes é nítida quando vemos tantas pessoas se encontrando no Parque Vila do Rodeio, antes uma área abandonada que se transformou em ponto de lazer e lugar de preservação ambiental. Também é impressionante o quanto se produz e se difunde a arte em Cidade Tiradentes. Fruto da demanda cultural e da mobilização dos moradores, em breve serão abertos ao público o Centro de Formação Cultural de Cidade Tiradentes e uma das nove unidades das Fábricas de Cultura que chegarão à periferia da capital.

Talvez por ter grande população jovem, o funk predomina na região. Ali foi criado o Baile do Permitidão, o chamado “funk do bem”, assim como o primeiro estúdio público para gravação de CDs, que fica na Estação de Juventude, na Avenida dos Metalúrgicos. Avenida, aliás, que passou por revitalização e hoje é muito estimada pelos moradores. Lá e nas diversas pracinhas as pessoas saem às ruas, encontram-se, conversam, exercem sua cidadania, enfim, usam os espaços públicos.

Ainda há muito a ser feito na infraestrutura do bairro, como calçadas, asfalto, postos de saúde e creches. E transporte – a população de Cidade Tiradentes será integrada a São Paulo quando o Expresso Tiradentes estiver finalizado, reduzindo para 50 minutos o tempo do longo percurso do bairro até o Centro.

Andrea Matarazzo é secretário estadual da Cultura de São Paulo.

Diário de São Paulo
Formador de Opinião