Tragédia anunciada


O assassinato do menino Bernardo Uglione Boldrini , na cidade de Três Passos (RS), crime que segundo a polícia foi cometido pela madrasta com ajuda de uma amiga, nos deixa absolutamente chocados. Por outro lado, também nos coloca diante de uma de grande reflexão.

A fragilidade do núcleo familiar dos Boldrini – madrasta psicopata e pai cedendo aos caprichos da companheira – deixavam Bernardo em situação crítica, a ponto dele, com seus 11 anos, procurar a Promotoria da Vara da Infância queixando-se de desamor e implorando ajuda. Com muita habilidade, o Conselho Tutelar da cidade acompanhou a difícil situação vivida pelo menor.

O juiz que cuidou do caso ouviu um pai que pedia a chance de reconstruir a relação com o filho. Juiz e promotoria, atentos ao Estatuto da Criança e do Adolescente que coloca como prioridade fortalecer o vínculo da criança com a família, concordaram em manter Bernardo no núcleo familiar.

Infelizmente, a história teve fim trágico: Bernardo, segundo a polícia, foi assassinado cruel e covardemente pela madrasta. Tivesse a sorte de viver sob o carinho e amor de uma família estruturada em valores verdadeiramente éticos, o seu destino certamente seria outro.

Mais de mil quilômetros separam Três Passos de São Paulo. Porém, um frágil e delicado fio condutor social une a cidade interiorana à grande metrópole. Lá, como aqui, outros tantos Bernardos, totalmente deslocados do convívio familiar, pedem ajuda. Resgatá-los requer da sociedade uma dupla conscientização. De um lado, não podemos prescindir da família como o grande e insubstituível espaço de educação e formação de nossas crianças e adolescentes, preparando-os para vida.

Por outro, temos que valorizar a atuação dos conselheiros tutelares, já que são eles a vivenciarem o trágico cotidiano de tantas crianças como o pequeno Bernardo. Por isso, os conselheiros devem ser ouvidos prioritariamente pela Justiça e também pela sociedade.